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Projeto resgata história e mantém viva a tradição dos ‘cururueiros’ do Pantanal

Pesquisa é desenvolvida na UFMS

PorDa Redação

16 abr 2021
Viola do Cocho é instrumento tradicional do Pantanal. Foto: Thierry Rojas Bobadilha
Viola do Cocho é instrumento tradicional do Pantanal. Foto: Thierry Rojas Bobadilha

Sonoridades e toadas peculiares fazem da viola-de-cocho um instrumento tão singular que há anos teve seu modo de fazer registrado como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Artesanal, o segredo da confecção dessa secular peça especial é dominada pelos artesãos e violeiros chamados de cururueiros, em sua grande maioria presentes em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em regiões banhadas pelas águas do Rio Paraguai e seus afluentes.

Muito utilizada em gêneros musicais tradicionais na região, como o Siriri e o Cururu, a viola-de- cocho e sua produção está hoje restrita a um pequeno grupo de anciãos cururueiros que com dificuldades procuram manter viva a tradição.

Essa preocupante realidade levou o professor Divino Marcos de Sena, do Campus do Pantanal, a realizar a pesquisa “Mapeamento dos Cururueiros de Corumbá, Ladário e assentamentos”, com o apoio do IPHAN e da UFMS, como forma de propiciar ferramentas que contribuam para a preservação dos saberes relacionados à viola-de-cocho, e às músicas, danças e personagens a ela atrelados.

“É interessante pensar o Cururu e o Siriri como uma das maiores expressões da cultura popular que existem no Pantanal brasileiro e não me refiro apenas a Mato Grosso do Sul, mas também ao Mato Grosso. Quando o Cururu e o Siriri ocorriam de forma mais intensa, essas localidades como Corumbá e Ladário mantinham uma estreita relação com outros ambientes que também são banhados pelas águas do Rio Paraguai e seus afluentes, com a circulação de indivíduos e suas ideias, crenças e tradições”, explica o professor Divino.

Presente até na região do médio Tietê, o Cururu chegou a São Paulo, assim como o ouro que era extraído de Mato Grosso para ser destinado aos cofres da Coroa Portuguesa.

“E nesse trânsito existiam vários indivíduos que trabalhavam como remadores, proeiros, camaradas, trabalhadores da navegação, todos de uma parcela mais pobre da população, e identificamos aí a presença do Cururu e do Siriri, que mantêm uma estreita relação com os populares e principalmente com a vida na área rural”, completa.

Mas, no decorrer do século XX, os cururueiros acabaram tendo de migrar para os espaços urbanos e acabaram levando consigo também as suas formas de recreação: o Cururu e o Siriri, música e dança, respectivamente.

Sendo assim, os mestres cururueiros possuem uma importância ímpar na manutenção dessa tradição cultural, segundo o professor Divino, por serem exportadores de saberes, de como produzir a viola-de-cocho, as toadas (músicas que são cantadas), de todo o ritmo ou ritual da celebração do Cururu em festas religiosas, com o culto aos santos do Catolicismo ou o enfoque ao amor, à natureza, entre outros.

“Os mestres cururueiros são indivíduos que possuem esse conhecimento, têm uma carga importantíssima para manutenção dessas expressões da cultura popular do Brasil, particularmente do Pantanal e dos estados de MT e MS”, diz.

Segundo o professor, existe um hibridismo, um sincretismo na confecção da viola-de-cocho e também na forma como o Cururu e o Siriri são dançados, com influência indígena, portuguesa, e africana, sendo importantíssimos para a tradição pantaneira.

“No Siriri, chamamos a importância para as siririeiras, que são as mulheres com conhecimento de como essa dança acontece. O Siriri é a versão mais dançante, enquanto o Cururu pode ser tanto relacionado aos aspectos religiosos como os de recreação. Nas letras se consegue perceber um pouco do ambiente em que esses indivíduos moravam, a relação com a natureza e também as suas crenças, além do aspecto de sociabilidade desses mestres cururueiros, que habitavam os espaços rurais, mas depois migraram para as cidades acabaram tendo de se ajustar à dinâmica urbana”.

Surge aí um problema, já que esse novo espaço nem sempre foi favorável e acessível para que ocorressem as rodas do Cururu, avalia o professor Divino, já que existe a preocupação em deixar esse espaço urbano mais disciplinado, “moderno” com restrições a atividades festeiras em determinadas horas.

“Com isso, o Cururu vem perdendo espaço e perdeu também diante da modernidade, das transformações culturais, já que a cultura de massa veio com força e acabou atingindo até mesmo os descentes dos cururueiros, que acabaram muitas vezes não se sentido atraídos pela manutenção da tradição na família”, lamenta o pesquisador.

A pesquisa identificou que gradativamente ocorre o desaparecimento do Cururu e do Siriri e dos mestres cururueiros na região de Corumbá e Ladário.

Em 2019, o professor identificou 26 pessoas que em algum momento estiveram ligadas a essa tradição cultural e que residem na área urbana ou nos assentamentos rurais em Corumbá e Ladário, marco espacial analisado. Vinte participaram da pesquisa, 18 homens e duas mulheres, sendo que dois já faleceram.

“A grande maioria tem uma idade avançada, mais de 70 anos de idade, são indivíduos que diante de suas condições socioeconômicas não conseguem se manter apenas com os saberes dos cururueiros. Alguns produzem a viola-de-cocho para ser comercializada e ainda assim isso não ajuda a subsistência da família. Isso faz com que os cururueiros acabem se afastando um pouco desse universo da viola-de-cocho ou do Cururu e do Siriri”.

Muitos se veem desestimulados, porque só são lembrados e procurados nos momentos de festas juninas.

“Por mais que a viola-de-cocho tenha sido registrada no livro de Saberes do Iphan, como patrimônio Cultural, pouco ou quase nada foi alterado na vida desses indivíduos. O Cururu e o Siriri eram uma forma de diversão e de alegria, eles se reuniam com a família e os amigos e cantavam e dançavam como uma forma de distração, de entretenimento”, relata o pesquisador.

Com a colaboração na pesquisa dos professores do Cpan Edgar Aparecido da Costa, Beatriz Lima de Paula Silva, Lucineide Rodrigues da Silva e Thierry Rojas Bobadilha, da rede municipal de ensino, o professor Divino enfatiza que seria importante que os governos municipais e estadual, por meio das Secretarias de Educação, orientassem as escolas a realizar apresentações e explicações envolvendo o Cururu e o Siriri durante as festividades juninas e também nos momentos de estudo da cultura popular local, fazendo uma relação com vários elementos da história dos estados de MT e MS.

“É interessante que essas danças façam parte do calendário escolar e sejam uma oportunidade para os alunos aprenderem a dançar, a cantar e até mesmo a tocar o instrumento com a presença de um ou mais cururueiros que poderiam ensinar. Isso estimularia crianças e jovens a entrar em contato com uma tradição cultural que é característica da região e serviria também como uma forma de educação patrimonial”, conclui o professor.

Divino lembra que as festas juninas, que antes marcavam o estilo de vida no campo, ultimamente, têm se tornado uma festa com inserção de outros estilos e aquilo que mantinha relação com o Brasil de uma época ou com a vida do campo está sendo deixado de lado.

“O Siriri seria uma boa oportunidade de dança para ser apresentada nas festas juninas e ao mesmo tempo envolveria alunos e professores e resultaria numa educação patrimonial despertando interesse e a consciência sobre a importância dessa tradição para a região e o Brasil como um todo. Outra proposta é ensinar a tocar os instrumentos e a cantar o Cururu e o Siriri na escola de música que é mantida pela municipalidade de Corumbá”.

O pesquisador vê como auxílio que as mídias locais e regionais também trabalhem nesse processo de valorização, convidando cururueiros ou expondo periodicamente aspectos dessa cultura pantaneira, de forma a reconhecer a importância do grupo para a história.

Além disso, incentivo do Estado para a criação de um espaço no qual os cururueiros pudessem compartilhar os seus problemas e encontrassem possibilidades para resolvê-los, além de expor os seus trabalhos como a viola-de-cocho e outros souvenirs que pudessem ser vendidos, o que acabaria estimulando renda extra para complementar a subsistência e incentivar os praticantes na permanência dessa tradição e a inserção de outras pessoas.

Texto: Paula Pimenta/UFMS